sábado, 6 de agosto de 2011

*AS BASES do CLOWN*

“Uno no actúa un Clown, uno lo es”.
(Jacques Lecoq)

Observa a ti mesmo... tuas ações, tuas reações, tua maneira de ser, de caminhar, de ver o mundo, de expressar-se. E exagera a ti mesmo.

A busca do clown é a busca do próprio ridículo.
Expressar-se sendo tu mesmo, sendo natural, é fantástico. Porém, tens que manter a naturalidade desde um estado de energia alta. Se o fazes com uma energia comum, poderias estar comprando no mercado... Qual é a graça? Não serás diferente, porém maior que a imagem que tens de ti mesmo. Ser clown é surpreender a atenção das pessoas... e roubar-lhes o coração.

Converte tuas debilidades pessoais em FORÇA TEATRAL.
Ser clown é a máxima liberdade, a liberdade de arriscar-se...

Não te defendas.
Se um clown baixa as calças de outro, este não o impedirá, observará como lhe baixam as calças com ingenuidade, até que se dê conta de que está em evidência diante do público. Logo pode vingar-se, porém não se defende, deixa que as coisas aconteçam.

Encontra prazer em tudo o que fazes.
Se tu não desfrutas, ninguém o fará. Não podes comunicar prazer a menos que o sintas. O clown joga alto pois nada tem a perder, e portanto é... LIVRE!!! É este o prazer com o qual o público se conecta. Se estás incômodo, distraído ou aborrecido em cena, o público nota e se afasta de ti.

Observa o público.
O público é o espetáculo que diverte e emociona o palhaço. O palhaço não age, reage às ações e às emoções do público. A inspiração, o roteiro, o texto, o momento de encerrar, tudo vem do público.

O CLOWN É...

Ingênuo, tolo. Porém não infantil!

Entusiasta. Emociona-se com qualquer coisa que lhe proponham e está sempre entusiasmado de ter um público com quem compartilhar.

Inocente e vulnerável. Permite-se fazer qualquer coisa porque é inocente e não espera que lhe façam algo mau. Não se defende (porém depois pode vingar-se). Mostra-nos sua vulnerabilidade e é isto que o torna mais humano ou que mais nos toca.

Torpe e estúpido. Sempre se equivoca ou mete os pés pelas mãos. Faz as coisas ao contrário, por exemplo, se há um piano e a cadeira está longe, não moverá a cadeira até o piano, moverá o piano até a cadeira.

Curioso como uma criança ante tudo o que lhe acontece ou encontra.

Sonhador e realista ao mesmo tempo.

Claro em tudo o que faz. Até a última pessoa da sala, ou a mais estúpida, há de entender sua intenção e seus atos.

Honesto. Crê no que faz. Está nu ante o público, mostrando-se tal como é.

Sê tu mesmo o mais profundamente possível e ganharás o coração do público.

O CLOWN ESTARÁ...

Relaxado e confortável em cena.

Em comunicação com o público. Ouvindo. A quarta parede está atrás do público.

Atento ao que ocorre ao seu redor, aproveitando qualquer coisa imprevista que aconteça para incorporá-la ao seu mundo.

Disponível.

O CLOWN...

Quer ser amado.

Quer ser como os demais (como um menino que quer ser adulto).

Entra em contato direto e imediato com o público e seu jogo é influenciado por estas reações.

Olha e vê o público. Compartilha com o público... tudo o que faz, tudo o que lhe acontece.

Escuta a risada (ou sua ausência).

Expressa suas emoções ao máximo (e pode passar de uma a outra em um instante).

Tem emoção e/ou intenção em tudo o que faz.

É mais visual que textual.

VIVE NO FRACASSO
— fracasso da pretensão: o clown realiza um número lamentável que ele crê genial. Anuncia a proeza do século e é apenas uma pirueta ou um malabarismo de três bolas. O público rirá dele.
— fracasso acidental: o clown não consegue fazer o que quer (um equilíbrio que não se consegue, um tombo depois de um simples salto, etc).

Reconhece seus fracassos. Quando um clown fracassa, quer dizer... faz algo e não provoca risos (quando é isto o que pretendia), em geral conseguirá uma risada se reconhecer seu fracasso. A forma de reconhecer este fracasso variará em função do clown.

Aproveita seus êxitos. Se faz algo que funciona (provoca risos), é um ás na manga que pode utilizar em outro momento em que algo não funcione para conseguir novamente uma risada. Pensa simples. Atua com o coração e não com a cabeça. Em realidade não pensa, faz! É!

Leva as coisas ao extremo. Qualquer coisa pode ser levada até extremos inverossímeis. E é nestes extremos onde quase com toda certeza conseguirá fazer rir ao público.

Tem problemas, porque é estúpido, torpe e ainda tem uma boca grande. Não busca problemas, encontra-os. Dirá que sim a qualquer coisa para permanecer em cena, ainda que provavelmente vá se meter em confusão. Por exemplo, se lhe perguntam se fala russo, dirá — “claro, fui professor de russo durante 25 anos”, e na realidade não tem nem idéia. Então lhe dão um texto para que traduza. E já se meteu em um problema.

Pode levar séculos para fazer algo (ou inclusive não chegar a fazê-lo nunca), porque se distrai com qualquer coisa, por mais insignificante que seja.

Chega ao palco com energia de ganhador, mesmo que seu personagem seja um perdedor (em tal caso, sairá com a energia do maior perdedor da história).

Em geral, tem um tempo mais lento que o de uma pessoa normal. Quer dizer... ao clown acontece algo que o coloca em evidência diante do público, como exemplo, chega com uma maleta que se abre e cai tudo que estava dentro. Uma pessoa normal reagiria imediatamente, recolhendo tudo e tratando de passar despercebido, o clown não. Ou seja, a maleta se abre e cai tudo o que há em seu interior: olha tudo no chão, (pausa 1... 2... 3... para assimilar o que aconteceu), olha o público (pausa 1... 2... 3... para mostrar sua vulnerabilidade, quer dizer... para que o público veja que se sente em evidência — “putz, caiu tudo e ainda por cima me viram”), recolhe tudo e volta a olhar para o público (pausa 1... 2... 3... como quem diz — “aqui nada aconteceu”). Essa pausa (esse tempo 1... 2... 3...) é o tempo que o clown necessita para assimilar o que lhe aconteceu e para mostrar ao público como se sente, e é também o tempo que o público necessita para “ler” o que está acontecendo ao clown.

Arrisca-se. Se algo não funciona, quer dizer, não faz o público rir, levará até o extremo o que faz ou buscará novas vias de fazer ou dizer o mesmo, ou fará algo totalmente diferente.

Resumindo...

Não atue, seja real. Quanto mais natural fores, quanto mais honesto, mais perto estarás de teu clown. Porém recorda... energia alta!!!

Olhe e veja o público, escute-o e compartilhe tudo com ele.

Seja ingênuo e estúpido, porém não infantil.

Mostra tua vulnerabilidade.

Tenha sempre uma emoção e/ou uma intenção. E não ilustres as emoções, expresse-as com teu olhar, com teu corpo!

Reconhece teus fracassos e aproveita teus êxitos.

Faz rir com o que és, com como fazes as coisas. É mais importante o como que o quê. Quer dizer... é mais interessante conseguir o riso com como fazes algo que com o que fazes em si mesmo (bom... também, mas o primeiro é mais importante).

Não busque o riso, encontre-o.

Material produzido por Alex Navarro & Caroline Dream, traduzido do espanhol e ilustrado pelo Maestro Cantai especialmente para o MUNDOCLOWN. As fotos são de Alex Navarro.

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